domingo, 21 de setembro de 2008

OS NOVOS BERÇOS DA NOTÍCIA

O espaço conceitual do jornalismo alargou fronteiras e horizontes.
Transpôs os limites das redações,
que definitivamente
deixaram de ser berços da notícia.
A notícia brota e circula
como ação dos sujeitos da atualidade,
que deliberadamente
exercem o poder de “dizer”,
gerando informações e conhecimentos
que nutrem o jornalismo,
entendido como espaço
e linguagem dos conflitos da atualidade


A nova fisionomia da atualidade coloca o jornalismo o desafio de assumir os novos papéis que o mundo globalizado e informacional lhe atribui, em geral, e às redações convencionais, em particular. Papéis que podem ser sintetizados em quatro linhas de ação convergentes e prioritárias:
a) Zelar pela preservação da linguagem jornalística como bem público;

b) Assumir e nutrir a vocação fundamental do jornalismo, de ser espaço público dos conflitos que interessam à sociedade;

c) Inserir a sociedade nos conflitos, como parte interessada preferencial;

d) Combater a exclusão discursiva, face perversa do mundo globalizado.

Em torno dessas idéias se desenvolve o texto sobre a crise do jornalismo, e que, por ser longo, talvez valha a pena imprimir.

A nova fisionomia da atualidade coloca o jornalismo o desafio de assumir os novos papéis que o mundo globalizado e informacional lhe atribui, em geral, e às redações convencionais, em particular.

1. O PODER EXERCIDO DE “DIZER”

No texto anterior, propus algumas perguntas para reflexão, acreditando que nelas se fazia, de alguma forma, a síntese das complexidades e perplexidades que caracterizam a crise atual do jornalismo. Crise que não significa perda de importância do jornalismo. Ao contrário; a crise resulta dos novos papéis que ao jornalismo foram e continuam a ser atribuídos, neste novo mundo globalizado pelas tecnologias da difusão instantânea e pelo uso que dessas tecnologias fazem os sujeitos produtores da atualidade. Mundo marcado, também, pelo crescendo e pela maturação de formas e práticas democráticas, principalmente as de cunho participativo.

Como a democracia tem natureza essencialmente discursiva, para alcances e efeitos imediatos no mundo presente das pessoas, tudo o que de importante se faz e se diz nos embates democráticos deságua no jornalismo. Assim, na cena democrática, os sujeitos agem e se movimentam com mais ou menos sucesso conforme a sua capacidade de produzir e socializar conteúdos. Para conquistar lugares próprios nos espaços e nos conflitos da atualidade, não basta, pois, criar fatos. É preciso recheá-los de conteúdos. Isto é, de significados discursivos. E isso explica a prioridade dada à comunicação social, em todos os campos organizados de atividade humana, em especial nos cenários da política, da economia, da cultura, da urbanização e das temáticas universais da sobrevivência humana.

Por motivos que têm a ver com a história recente do jornalismo brasileiro, foi a contratação bem remunerada de jornalistas que garantiu competência comunicacional a governos, empresas, corporações, igrejas, parlamentos, universidades, tribunais, clube, ONGs, enfim, à imensa teia de instituições e associações que dão esqueleto, nervos e recheio discursivo à sociedade.Apenas para servir de ilustração, cito um número: se contarmos os jornalistas que hoje trabalham na máquina federal de governo, a soma, pelo que me dizem, passará dos 3.000.

Isso mesmo: o governo federal é o maior empregador de jornalistas do país. E se juntarmos aos números do governo federal os jornalistas que, como concursados ou contratados, direta ou indiretamente prestam serviços aos governos estaduais e municipais, chegaremos a contingentes numericamente assombrosos de profissionais jornalistas que atuam na origem na notícia.

Na esfera da iniciativa privada, está também altamente disseminada e profissionalizada a atividade de assessoria de imprensa, ou, se preferirem, assessoria de comunicação ou assessoria jornalística. Não há, ou pelo menos não conheço, estatísticas que nos dêem um parâmetro quantitativo dessa atividade confiada preponderantemente a jornalistas. Mas podemos tomar como referência indicativa a avaliação feita no âmbito da Abracom, que vem a ser a Associação Brasileira das Agências de Comunicação.

A Abracom, que atualmente agrega 291 das agências de comunicação no País, trabalha com a estimativa que de que o setor seja hoje constituído por 1.100 agências, responsáveis pela geração de 13 mil empregos. E com o faturamento global, estimado para este ano, de um bilhão de reais.

Nesses números não entram os jornalistas que trabalham internamente, nas estruturas empresariais de comunicação; nem os free-lancers; nem os que, como fornecedores individuais de serviços especializados, se movimentam nesse mercado como produtores de textos, pautas, desenhos gráficos, reportagens fotográficas, copidesques, redatores de discursos, editores de publicações, auditores de qualidade – e sites, blogs, etc., etc., etc...

A ênfase no “etc.” se justifica, porque o campo é vasto e propício para iniciativas criativas, até de recém-formados.

E o que essa gente bem treinada e bem remunerada faz, trabalhando como jornalistas nas fontes?


Se procurarmos resposta na observação metódica da experiência, olhando o trabalho jornalístico nas fontes e o trabalho jornalístico nas redações, descobriremos que as fontes deixaram de ser objeto utilitário do jornalismo. Elas saíram das beiradas da produção jornalística, para se integrarem nela, como núcleos produtores de conteúdos que interessam à sociedade.

Os jornalistas que nas fontes trabalham fazem a adequação desses conteúdos à linguagem jornalística e aos processos combinados da difusão jornalística, desdobrada em meios, tecnologias, logísticas e periodicidades que estrategicamente se complementam.

Sim, o espaço conceitual do jornalismo alargou fronteiras e horizontes. Transpôs os limites das redações, que definitivamente deixaram de ser berços da notícia. A notícia brota e circula como ação dos sujeitos da atualidade, que deliberadamente exercem o poder de “dizer”, gerando informações e conhecimentos que nutrem o jornalismo, entendido como espaço e linguagem dos conflitos da atualidade.

2. A CRISE E A SÍNTESE, NUMA PALAVRA: ÉTICA!

A capacidade desenvolvida pelos sujeitos sociais organizados, de gerar e socializar as suas próprias notícias, constitui avanço importante nos planos da democracia e da cultura. Porque temos aí um cenário de sujeitos sociais falantes, capazes de produzir transformações quando deliberadamente exercem o direito de dizer.

Mas essa fisionomia da atualidade, criada pela participação ativa das fontes nos processos noticiosos da atualidade, coloca ao jornalismo problemas novos e inesperados, tanto no plano das teorias quanto no plano dos “fazeres”. Um deles, talvez o mais complexo e desafiador, o que se refere aos novos papéis que o mundo globalizado e informacional atribui ao jornalismo, em geral, e às redações convencionais, em particular.

Que papéis são ou serão esses?

Cada um de nós tem experiências, vivências, conhecimentos, inquietações e visões de mundo próprias para elaborar respostas e as propor à discussão. E isso é o que mais importa.

Como proponente destas reflexões, deixo aqui a minha contribuição para o debate, vislumbrando para as redações jornalísticas tradicionais quatro frentes de atuação de enorme importância.

Ei-las:


1) Zelar pela preservação da linguagem jornalística como bem público.

A democracia, a cultura e as suas respectivas dinâmicas dependem hoje, e cada vez mais, da eficácia interlocutória e interativa da linguagem jornalística – que deve ser radicalmente veraz; clara, tanto nas formas quanto nas intenções; e vinculada à Ética dos Valores, fonte de perspectivas, para olhar o mundo dos acontecimentos e das falas noticiáveis.

2) Assumir e nutrir a vocação fundamental do jornalismo, de ser espaço público dos conflitos que interessam à sociedade.

Os esquemas da narração e da argumentação, no potencial criativo de suas várias formas (notícia, reportagem, entrevista, artigo...), garantem ao relato e ao comentário jornalísticos um extraordinário vigor performativo. É esse vigor da linguagem jornalística que propicia aos protagonistas sociais divergentes realizar com sucesso imediato ações discursivas. Mas essa aptidão pragmática da linguagem jornalística pode e deve ser usada, pelas redações, para fazer aflorar plenamente, e com sucesso, os conflitos importantes da atualidade. Não basta, portanto, a simples reprodução dos discursos particulares. É preciso colocá-los em rotas de embate, para que o conflito aconteça e se realize com sucesso. E para que as transformações aconteçam.

3) Inserir a sociedade nos conflitos, como parte interessada preferencial –

e entenda-se por sociedade a abstração representada pelo projeto ético da Nação, resumido no Artigo 5º da Constituição, marco civilizatório elaborado na caminhada histórica de conflitos e acordos que dão forma organizada às interações humanas. Como ente abstrato, a sociedade tem a Ética no rosto e na essência. E na Ética estão os contextos e as razões de ser do olhar jornalístico.

4) Combater a exclusão discursiva, face perversa do mundo globalizado.

E combater a exclusão discursiva descobrir e dar voz aos sujeitos sociais mais fracos, mais pobres, menos organizados, e que ainda não se tornaram capazes de produzir fatos e falas noticiáveis. Para que isso aconteça, é preciso inserir o mundo não noticiado na pauta e na busca jornalísticas. Mergulhar além do que os olhos vêm, na superfície recheada de acontecimentos programados, para descobrir e revelar o mundo escondido das dores, sonhos e lutas de quem ainda não saber “dizer” nem como “dizer”. Fazendo deles protagonistas de suas lutas e de sua própria história.

NA SÍNTESE, UMA PALAVRA: ÉTICA.

Com ela, será possível dar uma nova dignidade ao jornalismo e à profissão.

(Texto do professor Carlos Chaparro)

2 comentários:

Carla disse...

Vânia, sou jornalista de São Paulo e estou retomando o caso Abagge. Gostaria muuuiiittto de falar com você. Onde te encontro? Se você vir está mensagem por favor me mande um contato pelo caleirner@hotmail.com. Muito muito obrigada, carla.

VMWELTE disse...

Olá, Carla:

Saudações!

Seja bem vinda neste Blog.
Já lhe enviei a resposta no endereço que me pediu.

Grata pela sua participação.

Abraços fraternos;

Vania Mara Welte